
Prestes a desembarcar em Madri para sua turnê “Caetano nos festivais”, Caetano Veloso voltou a refletir sobre o Brasil, política, cultura e comportamento em uma nova entrevista ao jornal espanhol El País divulgada nesta segunda-feira (1º). O cantor aproveitou o espaço e fez declarações sobre o futuro do país, críticas ao excesso de foco em pautas identitárias e alertas sobre a naturalização de discursos autoritários.
Ao falar sobre o momento atual do Brasil, Caetano admitiu que o sentimento predominante é de preocupação.
“Neste momento, a preocupação predomina em mim; às vezes, uma espécie de desencanto. Hoje as coisas estão tão feias… O Brasil parece incapaz de se salvar”, afirmou.
Apesar da avaliação pessimista, o artista disse que ainda acredita no potencial do país.
“Ao mesmo tempo, porém, ainda tenho a sensação de que o país pode dizer algo importante ao mundo. Esse sentimento ainda não morreu dentro de mim”, completou.
Em texto publicado neste 1º de junho, data que marca o início do Mês do Orgulho LGBTQIA+, Caetano avaliou que o debate contemporâneo estaria marcado por um excesso de exposição e discussões sobre raça, sexualidade e gênero.
Ao comentar o tema, Caetano avaliou que o debate contemporâneo estaria marcado por um excesso de exposição.
“Agora me parece que há mais exposição do que qualquer outra coisa. Quando escrevi ‘Verdade Tropical’, eu dizia que a esquerda precisava prestar mais atenção às questões raciais, sexuais e comportamentais. Mas hoje me parece que há um excesso de racialização, sexualização e ênfase nas questões de gênero. Isso gera muita confusão”, declarou.
O músico também demonstrou preocupação com a presença cada vez mais aberta de discursos favoráveis à ditadura militar. Preso e posteriormente exilado durante o regime, ele classificou esse tipo de posicionamento como “insuportável”.
Em outro trecho da conversa, Caetano retomou uma das ideias centrais do movimento tropicalista ao defender a mistura de influências culturais e rejeitar qualquer noção de pureza.
“Nas Américas não existe pureza cultural. Por isso, não aceitávamos uma defesa fechada da tradição. Mais tarde descobrimos as ideias de Oswald de Andrade e a noção de ‘antropofagia cultural’: devorar influências do mundo dominante para transformá-las em algo nosso. Essa visão complexa da cultura ainda me parece válida”, afirmou.
O cantor segue em turnê e ainda passa por São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro.
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