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Copa do Mundo: inovações tecnológicas começam a mudar as partidas dentro de campo

Foi um ritual inédito. Todos os 26 jogadores da seleção brasileira tiveram os corpos escaneados assim que chegaram aos Estados Unidos. Um a um, entre sorrisos e algum espanto, eles entraram em aparelhos semelhantes aos que existem em aeroportos. Ergueram os braços, afastaram as pernas e, em menos de trinta segundos, missão cumprida. Dos pés à cabeça, tiveram anotados 29 pontos do esqueleto, de modo a criar “avatares”, cópias exatas de cada um deles.

O objetivo: facilitar, em tempo real, por meio de dezesseis câmeras eletrônicas instaladas em cada estádio da Copa do Mundo, em território americano, no México e no Canadá, a definição da posição de impedimento, em processo semiautomático. Posto de outro modo: sem que as imagens tenham de passar pelo VAR — instalado em uma central de comando em Dallas —, o árbitro e os auxiliares de linhas têm a resposta em um átimo de tempo, a partir do registro simultâneo, cinquenta vezes por segundo, dos detalhes anatômicos dos atletas. As figurinhas que se veem na televisão são as tais imitações precisas.

OLHO VIVO - A câmera em Wilton Pereira Sampaio: o ponto de vista do juiz em México x África do Sul
OLHO VIVO - A câmera em Wilton Pereira Sampaio: o ponto de vista do juiz em México x África do SulHeuler Andrey/ESI/Getty Images;/Reprodução

No Catar, há quatro anos, as informações eram passadas para a turma do VAR — agora, não, é direto, com o luxo tecnológico dos “avatares” criados por inteligência artificial. O VAR ainda existe, claro, mas tem sido posto em papel secundário, ou quase, porque houve avanços. “A inovação é uma ferramenta de transparência, útil para os juízes e fundamental para a aproximação dos torcedores com as partidas”, diz Yuanqing Yang, CEO da Lenovo, multinacional chinesa encarregada da empreitada.

As reproduções desenhadas por imagens dos 1 248 candidatos a heróis, e alguns vilões, são a porta de entrada de uma interessante característica do torneio, sem precedentes: será a Copa mais tecnológica de todas. Além dos avatares, destaca-se o chip posto dentro da bola oficial, a Trionda, em recurso que facilita a captura do movimento da redonda a todo instante, o exato momento do passe — fundamental para o controle de impedimentos — e, claro, a posição em lances limítrofes, em pênaltis duvidosos ou gols em que a linha é ultrapassada no detalhe. Há também a câmera levada pelos árbitros, em efeito insólito, inaugurada pelo brasileiro Wilton Pereira Sampaio na estreia, a vitória do México contra a África do Sul, por 2 a 0: vê-se o ponto de vista de homens e mulheres do apito, em imersão cinematográfica. A traquitana tinha sido experimentada no Mundial de Clubes no ano passado, mas melhorou, com 50% menos de tremor, graças a um mecanismo de estabilidade de movimentos. Há algum estranhamento, mas é fascinante para o torcedor pular direto do sofá para dentro do campo — e muito bem pensado.

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PETS ELETRÔNICOS - Polícia na Cidade do México: ajuda de cães robotizados
PETS ELETRÔNICOS - Polícia na Cidade do México: ajuda de cães robotizados./Reprodução

A evolução eletrônica foi sempre um desejo de eventos esportivos televisionados — desde a introdução das cores, em 1970, e do replay, também na Copa vencida por Pelé e cia. Outro salto, ruidoso, foi o estabelecimento do VAR, em 2018, na Rússia. Há, agora, algo incomum. Por décadas, a tecnologia no futebol serviu somente ao telespectador, e que bom ter sido assim. O chip na bola da Copa de 2010 impressionava quem assistia à transmissão, mas servia apenas para saber se a linha de cal tinha sido vencida — dentro de campo, o artilheiro chutava a mesma esfera de sempre. O VAR em 2018 mudou resultados, mas era medida de revisão: parava o relógio, congelava o momento, exigia a consulta da imagem. Em 2022, no Catar, o sistema semiautomático de impedimento produziu gráficos tridimensionais deslumbrantes nas recuperações de imagens — e o assistente continuava levantando a bandeirinha como em 1930, com grandes chances de erro. Em 2026, tudo parece mudar. As inovações já não registram apenas os jogos — estão dentro deles e não deixam muita margem para dúvida. O julgamento humano dá vez ao algoritmo, como em quase tudo na vida. É a precisão elevada ao cubo.

Até mesmo dentro do gramado há consequências, por assim dizer, táticas, em novidade corroborada pelo ex-treinador Arsène Wenger, diretor de Desenvolvimento Global de Futebol da Fifa. Os atacantes voltaram a explorar posicionamento no limite do impedimento, indicam dados reunidos pela Fifa. Por anos, o VAR gerou efeito oposto. Os jogadores, sabendo que qualquer imperfeição seria congelada, passaram a preferir posições de segurança. Não é uma revolução visível. É uma mudança de mentalidade que vai aparecer aos poucos nas estatísticas de corridas em profundidade, nos metros ganhos nas costas da defesa. O jogo aprende a confiar na tecnologia — e ajusta o corpo a isso. “O futebol, apesar de ser visto como esporte conservador, abraçou a tecnologia nos últimos anos”, diz Mattias Grafström, secretário-geral da Fifa.

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CRESCIMENTO - A sala do VAR, em Dallas: a ferramenta já saiu da infância
CRESCIMENTO - A sala do VAR, em Dallas: a ferramenta já saiu da infância./Reprodução

O futebol avança, mas avança negociando com seus próprios fantasmas. “Ele havia ficado muito para trás, em relações a recursos de tomadas de decisões como há em outras modalidades”, diz Renan Borges, executivo de tecnologia da End to End, empresa de marketing esportivo. “Com a velocidade conquistada, cada vez mais estaremos perto de um ponto sempre desejado, o da tecnologia acabar por ser imperceptível, por natural.”

Com algum tolo romantismo, sempre se louvou o erro, os questionamentos, os xingamentos contra o juiz, como se um pouquinho de desonestidade fosse louvável — e o gol com a “mão de Deus” de Maradona, em 1986, é símbolo dessa postura, a contrafação e a esperteza transformadas em gesto genial. Dizia-se, e ainda se diz, que a dramaticidade do futebol reside na imprecisão e que a dúvida seria parte do espetáculo. E fica no ar uma pergunta incômoda: o que o mágico esporte de onze contra onze perde quando não erra mais? Nada, possivelmente. Sim, os torcedores nos estádios ainda gritam, esperneiam (e são protegidos por cães robotizados no México) — mas a resposta vem antes do brado. E adeus ao choro, porque os avatares não mentem, até porque não falam — e as certezas brotam antes de se ler essa frase. Haverá quem acredite ter perdido a graça, mas nada como o tempo para fazer valer novos hábitos. E quem dera houvesse um avatar de Neymar sem dores na panturrilha.

Publicado em VEJA de 19 de junho de 2026, edição nº 3000

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Fonte: veja.abril.com.br

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