HomeEsportesDonald Trump é o tipo de líder que os ‘pais fundadores’ negariam

Donald Trump é o tipo de líder que os ‘pais fundadores’ negariam

A filósofa americana Sasha Mudd, hoje na Pontifícia Universidade Católica do Chile, é uma das mais respeitadas vozes críticas ao governo de Donald Trump. Ela conversou com VEJA. A seguir, os melhores trechos da entrevista.

Mulher de pele clara, cabelos castanhos ondulados, vestindo jaqueta de couro cinza e camisa jeans, olhando diretamente para frente com expressão neutra
Sasha Mudd, filósofa americana: olhar cuidadosa para as instituiçõesLinkedin/Reprodução

O que os chamados “pais fundadores” dos Estados Unidos diriam hoje sobre a postura de Donald Trump? É sempre um erro tratar os fundadores como se tivessem uma única voz. Eles discordavam profundamente entre si e eram moldados, em muitos aspectos, pelas suposições e limitações de seu tempo. Ainda assim, há uma preocupação que aparece de forma consistente em seus escritos: uma profunda desconfiança em relação ao poder concentrado e discricionário. Nesse ponto, acredito que muitos deles veriam algo familiar em Trump — não apenas um adversário político, mas um tipo de líder que o sistema constitucional deles foi explicitamente concebido para conter.

O que mais os preocupava não era o desacordo ou a existência de facções, mas a possibilidade de o poder passar a ser exercido de acordo com a vontade pessoal, e não segundo leis gerais. A arquitetura da Constituição — seus freios, contrapesos e separações de poder — reflete justamente o esforço de impedir esse desfecho. A ideia central deles era que pessoas livres não deveriam depender da boa vontade ou do temperamento daqueles que ocupam cargos públicos; elas deveriam ser protegidas por regras estáveis e impessoais, aplicadas igualmente a todos.

Sob essa perspectiva, suspeito que eles veriam o estilo de governança de Trump mais como um sinal de alerta do que como uma anomalia. A figura do líder carismático que afirma agir em nome do povo enquanto enfraquece restrições institucionais é algo que eles conheciam bem pela história. Eles não acreditavam que repúblicas fossem imunes a esse tipo de personagem; ao contrário, construíram o sistema justamente porque os temiam.

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Afinal, Trump representa um risco para a democracia? Sim, e o problema não é apenas político, mas filosófico. A fundação americana não foi apenas um ato de independência; foi também uma teoria sobre o que torna legítima a autoridade política. No centro dessa teoria está a ideia de que o governo deve operar dentro de limites — que ele existe para garantir direitos, não para anulá-los, e que seus poderes precisam ser restringidos pela lei.

Na tradição republicana que moldou a fundação, liberdade não significa apenas ser deixado em paz. Trata-se de uma condição na qual os indivíduos não estão expostos às decisões arbitrárias daqueles que os governam. Mesmo que o Estado não interfira o tempo todo, a simples possibilidade de que possa fazê-lo de maneira imprevisível já é suficiente para minar a liberdade. Uma pessoa que precisa constantemente antecipar como o poder pode ser usado contra ela não é verdadeiramente livre.

É por isso que a erosão das limitações legais ao poder executivo é tão significativa. Quando as instituições perdem a capacidade de limitar a autoridade, a própria natureza da cidadania começa a mudar. As pessoas deixam de se relacionar com o Estado como iguais portadores de direitos e passam a agir como indivíduos cuja segurança depende da maneira como são percebidos pelos que estão no comando. Isso representa um afastamento muito profundo da visão original da fundação.

Já houve, na história dos Estados Unidos, outros momentos preocupantes como agora? Houve muitos momentos na história americana em que a promessa de liberdade foi aplicada de maneira desigual ou abertamente violada. A escravidão, a segregação racial, o internamento de nipo-americanos e a repressão à dissidência durante a Guerra Fria revelam como esses ideais sempre foram frágeis na prática. A hostilidade contra imigrantes e minorias também não é novidade; ela reapareceu em diferentes formas ao longo dos séculos.

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O que distingue o momento atual não é o retorno dessas tendências, mas o modo como elas estão sendo combinadas e legitimadas. Estamos vendo uma abordagem de governo que desafia abertamente a ideia de que o poder deve ser limitado por instituições independentes. O Executivo não está apenas tomando decisões controversas; está testando até que ponto a própria estrutura legal e institucional pode ser dobrada ou contornada.

Em períodos anteriores, mesmo quando direitos eram negados, ainda havia ao menos um reconhecimento formal de que essa negação entrava em conflito com princípios constitucionais. O que parece diferente agora é a crescente disposição de tratar esses princípios como obstáculos, e não como fundamentos. A preocupação é menos com uma política específica e mais com uma mudança mais ampla em direção ao personalismo e ao enfraquecimento institucional.

Como os Estados Unidos deveriam marcar o 250º aniversário da independência sob Trump? Uma versão mais clara da pergunta poderia ser: “Como os Estados Unidos devem comemorar os 250 anos de sua independência em um momento em que os princípios fundadores parecem estar em crise?” Essa formulação captura melhor o que realmente está em jogo. O aniversário não deveria ser tratado como uma simples celebração. É uma oportunidade para refletir sobre a distância entre os ideais formulados na fundação e as realidades que vieram depois. A comemoração, nesse sentido, deve envolver tanto reconhecimento quanto crítica: reconhecimento dos princípios que foram articulados e crítica às maneiras pelas quais eles foram comprometidos ou traídos.

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Num momento em que esses princípios estão sob pressão, a maneira mais significativa de marcar o aniversário é levá-los a sério. Isso significa perguntar o que seria necessário para sustentá-los hoje, nas condições contemporâneas. Em vez de oferecer uma narrativa polida de sucesso nacional, a ocasião deveria convidar a uma pergunta mais exigente: o compromisso com um governo submetido à lei e com a igualdade perante a lei ainda está sendo honrado na prática?

A contradição da escravidão ter sido deixada de fora da carta da independência compromete a relevância do passo inicial, em 1776? Sem dúvida, isso a torna mais complexa. A coexistência de afirmações universais sobre igualdade humana com a realidade da escravidão é uma das contradições centrais da fundação americana. Ela revela que os princípios formulados naquele momento não foram aplicados de maneira consistente, nem mesmo por aqueles que os defenderam.

Ao mesmo tempo, esses princípios não permaneceram presos ao seu contexto original. Eles foram retomados, reinterpretados e mobilizados por gerações posteriores que procuraram justamente desafiar as exclusões embutidas na fundação. Movimentos abolicionistas, pelos direitos civis e por igualdade mais ampla recorreram, de diferentes maneiras, à linguagem formulada no século XVIII.

Assim, a contradição não torna a fundação irrelevante; ela a transforma em um campo permanente de disputa. O aniversário não deve ser encarado como um momento de afirmação acrítica, mas como um convite para continuar um processo que jamais foi concluído: o esforço de aproximar a prática dos princípios.

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Fonte: veja.abril.com.br

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