O Canadá entra em campo nesta quarta-feira, 24, para jogar contra a Suíça no estádio de Vancouver, precisando de apenas um empate para passar de fase em primeiro do grupo B. Já é uma campanha histórica, uma vez que o Canadá jamais havia vencido uma partida em Copas do Mundo, que dirá passar para a fase de mata-mata.
Diante de todo o gigantismo de tudo que acontece nos Estados Unidos e da tradição futebolística do México, o Canadá tem ficado um pouco ofuscado como uma das três sedes da Copa do Mundo aos olhos dos estrangeiros, especialmente quando o fuso horário de Vancouver leva algumas partidas para o início da madrugada no Brasil. Para os canadenses, porém, a importância do torneio vai muito além de uma disputa por holofotes. Trata-se de uma tentativa de usar a Copa para mudar estruturalmente o futebol no país e alçá-lo a um novo patamar, assim como fizeram os Estados Unidos em 1994, que na época sequer tinham um campeonato nacional e o esporte simplesmente não era transmitido em nenhum canal, aberto ou a cabo. O Mundial catalisou uma transformação, e hoje o futebol no país é pujante a ponto de ser a casa de Lionel Messi.
Os sinais em campo já estão deixando os torcedores animados. O Canadá empatou com a Bósnia na estreia e goleou o Catar por 6 a 0 em Vancouver. Jonathan David sozinho marcou três vezes, mais do que a seleção havia feito nos sete jogos anteriores somados. O goleiro Maxime Crepeau, que ficou de fora do Mundial de 2022 ao fraturar a perna na final da MLS (o campeonato americano), ficou invicto pela primeira vez na história do país em uma Copa. Foram 32 finalizações canadenses contra apenas 2 do adversário.
A vitória teve um custo alto: o meio-campista Ismael Kone saiu de maca com uma fratura grave na perna, mais um desfalque num time que já entrou no torneio sem três titulares das eliminatórias.
Mas é fora de campo que está a maior esperança na transformação do esporte no país. Steve Reed, ex-presidente da federação canadense e um dos articuladores da candidatura para sediar a Copa, lembra que o Mundial feminino de 2015 no país gerou quase meio bilhão de dólares em atividade econômica, o dobro do previsto, além de impulsionar a construção de 21 campos com padrão Fifa e aumentar sensivelmente a busca de jovens, entre meninas e meninos, para as categorias de base dos clubes. A partida entre Canadá e Inglaterra nas quartas de final foi assistida por 20,8 milhões de pessoas, recorde de audiência televisiva no país.
E, diferentemente dos Estados Unidos lá em 1994, o Canadá já tem uma estrutura para aproveitar essa nova onda. O futebol é o esporte com maior número de praticantes registrados no Canadá e perde apenas para o hóquei no gelo em audiência. A Canadian Premier League, fundada há poucos anos, já revelou 15 jogadores para a seleção. E os principais times do país participam normalmente da MLS, com equipes em Vancouver, Montreal e Toronto.

Aumentar o público e o número de jogadores é um dos objetivos do Canadá, mas a meta principal é dar um salto de qualidade. O que, como a goleada sobre o Catar mostra, já vem acontecendo. Em 2018, a federação contratou John Herdman para reconstruir a seleção masculina. O técnico havia levado a equipe feminina do último lugar no Mundial de 2011 às quartas de final da edição seguinte, com dois bronzes olímpicos no caminho. Com os homens, fez algo parecido: o Canadá voltou a uma Copa após 32 anos de ausência e ainda venceu a eliminatória da Concacaf para chegar ao Catar em 2022.
Jesse Marsch, que assumiu o comando em 2024, levou adiante a aposta em jogadores com dupla nacionalidade. O elenco atual reúne atletas com raízes em mais de 17 países, do Irã às Filipinas, passando por Haiti, Nigéria e Jamaica, reflexo de um país em que quase um quarto da população nasceu fora de suas fronteiras. “Somos um caldeirão cultural e abraçamos isso”, disse Anthony Totera, fundador da Canadian Premier League, a VEJA. “Temos jogadores com origens em toda a parte do mundo, mas são todos canadenses orgulhosos de seu país.”
E é na inspiração que esses jogadores podem gerar em todo o país que Totera está apostando. A chance de o Canadá ser eliminado nesta quarta é quase nula. Em caso de vitória da Suíça, os europeus passam em primeiro. Mas para a Bósnia ultrapassar o Canadá, além de vencer o Catar, teria que tirar uma diferença de saldo de 9 gols. Compreensivelmente, a torcida ainda está adotando uma certa cautela. “Estamos à beira de algo muito especial”, afirma Totera. “Não estamos falando só sobre o time ir mais longe que qualquer outro na história, mas do destino de todo o futebol do país nos próximos 20 anos.”
O resultado desta quarta dirá quanto. Mas a transformação, em boa medida, já começou.
Fonte: veja.abril.com.br


